O rastreador funcionou. O difícil era trazê-lo de volta
Rastreamos um ano de cargas de fertilizante da Yara saindo de três plantas. A tecnologia funcionou de ponta a ponta. O que parou o projeto foi outra coisa.
Seis meses depois da entrega, o produtor abriu o silo e encontrou pedra. O fertilizante que ele comprou tinha saído da planta, o caminhão tinha chegado, a nota tinha sido assinada. Em algum ponto do caminho, a carga virou outra coisa.
Esse é o tipo de perda que quem opera logística no agro conhece e quase nunca consegue explicar. Não porque falte vontade de investigar. Falta o dado.
O que a Yara sabia, e o que não sabia
Foi a área de logística e segurança da Yara que nos procurou. A pergunta deles era simples de fazer e difícil de responder: por onde passa o caminhão entre a planta e o cliente?
Até ali, eles sabiam duas coisas sobre cada carga. Que ela saiu, e se ela chegou. O que acontecia no meio era um trecho em branco. E quando o problema aparecia, aparecia tarde demais para servir: meses depois, no silo do produtor, sem nenhuma forma de dizer onde a troca tinha acontecido, nem quando, nem em que caminhão.
O trecho que mais importa é justamente o que não tem sinal de celular: estrada de terra, zona rural, os quilômetros finais até a fazenda. É ali que o roubo acontece, porque é ali que ninguém vê.
O que desenhamos
A resposta foi colocar o rastreador na carga, não no caminhão.
Um aparelho portátil, com bateria própria, que embarca junto com o fertilizante na planta e segue com ele até o destino. Ele se comunica por satélite, e não pela rede de celular, porque o ponto inteiro era enxergar o trecho onde o celular não pega. Do outro lado, um sistema recebe as posições, desenha o percurso num mapa e mostra, para cada pedido, por onde a carga andou e onde ela parou.
A logística da Yara passava a ter o que nunca teve: o caminho, e não só a saída e a chegada.
Um ano, três plantas
O piloto rodou em Cubatão, Rondonópolis e Paranaguá, por cerca de um ano.
Funcionou de ponta a ponta. A carga saía da planta com o rastreador, o sinal chegava do trecho sem cobertura, e o percurso aparecia completo no mapa. A pergunta que a área de segurança fazia no começo passou a ter resposta para cada carga rastreada.
Nesse período não houve nenhum desvio. É o tipo de resultado que qualquer projeto de segurança conhece: quando nada acontece, fica difícil mostrar o que o sistema evitou. O que o piloto provou foi que a tecnologia enxerga o que precisava enxergar. Não teve a chance de provar que pega o ladrão.
O que parou o projeto não foi a tecnologia
Aqui está a parte que ninguém tinha colocado no papel no começo.
O rastreador vai com a carga até a fazenda. E depois precisa voltar. Um aparelho que custa caro não pode ficar esquecido numa fazenda a cada entrega. Alguém precisa recolher, alguém precisa transportar de volta, alguém precisa recarregar e colocar na próxima carga. Isso tem nome em logística: logística reversa. E ela é uma operação inteira, com gente, rota e custo, que existia só para servir ao rastreador.
Somado a isso, a conta de um rastreador por carga. Com o volume de entregas que sai de uma planta dessas, o custo do aparelho multiplicado pelo número de cargas, mais o custo de trazê-lo de volta, virava um número que precisava de orçamento e de alguém disposto a defendê-lo. O orçamento apertou, faltou quem, dentro da empresa, bancasse o projeto, e ele não seguiu.
Não é uma história de fracasso. O que ficou provado é que o problema técnico estava resolvido. O que não fechou foi a operação em volta dele.
As duas saídas fáceis, e por que recusamos
Na mesa apareceram duas sugestões para baixar a conta. As duas pareciam razoáveis, e nenhuma entrou.
A primeira era um rastreador descartável: vai com a carga e não volta. Acaba com a logística reversa de uma vez. O problema é a bateria. Cada carga deixaria uma bateria usada numa fazenda. Uma empresa do agro poluindo a terra do próprio cliente não é detalhe de custo. É inviável.
A segunda era um aparelho mais barato. Aqui o problema é o que se perde. Rastreador de satélite barato é um equipamento muito inferior, e o motivo inteiro do projeto era enxergar o trecho difícil. Economizar no aparelho seria pagar menos para voltar a não ver.
O que propusemos
Um comodato. A Yara não compraria os rastreadores: pagaria um valor mínimo por mês por equipamento rodando, e os aparelhos continuariam sendo nossos. O custo deixa de ser uma compra grande feita antes de ver resultado e passa a acompanhar o uso. Carga parada, rastreador parado, conta menor.
Com isso, a única peça que faltava para tudo funcionar era a logística reversa: trazer o aparelho de volta para a próxima carga. Foi aí que o projeto parou, e é por isso que ele está guardado, não descartado. O sistema existe, o percurso aparece no mapa, a comunicação por satélite funciona no trecho sem sinal, e o modelo de cobrança já está desenhado.
Se a sua carga passa por trecho sem sinal, e você só descobre a perda quando ela já não tem mais como ser explicada, esse é um problema que a gente já resolveu uma vez e gostaria de resolver de novo.

